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Escalada do desemprego acelera desigualdade de distribuição de renda

20 de junho de 2016
por cason
Publicado emHome, Notícias

Atividade econômica tem queda no 1º trimestre

Renda dos mais ricos continua a avançar, apesar de recessão

A escalada do desemprego tem produzido um efeito adverso na distribuição de renda do país. Após anos de queda contínua, a desigualdade -a distância de renda entre ricos e pobres- voltou a crescer com força no primeiro trimestre deste ano.

A tendência é objeto de estudo do professor da USP Rodolfo Hoffmann, especialista em políticas sociais, que usou dados do IBGE para estudar o impacto da falta de vagas.

Desde o início do segundo mandato da presidente afastada, Dilma Rousseff, em 2015, a desigualdade entre os que compõem a força de trabalho (desempregados e ocupados) aumentou quase 3%. É bastante para um indicador que varia pouco ao longo tempo. Nesse período, a taxa de desemprego subiu de 7,9% para 10,9%.

O levantamento se baseia em informações da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), cuja série começou em 2012. E capta apenas os movimentos da renda proveniente do mercado de trabalho.

Deixa de lado, portanto, recursos que venham de aposentadoria, pensões e aluguéis, por exemplo.

Assim, se a pessoa perdeu o emprego, a renda, por esse estudo, vai a zero, mesmo que eventualmente receba recursos do Bolsa Família ou da Previdência.

Seguro-desemprego e FGTS, que têm efeitos só temporários, também não são computados.

A métrica mais apurada para medir a desigualdade é a renda dividida por morador de um domicílio, mas esse dado só é divulgado pelo IBGE uma vez por ano, em setembro. Até lá, para não ficar no escuro, estudiosos costumam usar como régua a renda dos trabalhadores ocupados.

NÚCLEO DA RECESSÃO

Hoffmann, porém, decidiu trilhar outra via, para ajustar a visão sobre o que considera o núcleo da recessão.

“Como uma característica importante da crise é o aumento do desemprego, é mais apropriado analisar a distribuição do rendimento da força de trabalho, e não apenas dos ocupados. Considerar apenas os ocupados implica desconsiderar os desempregados”, diz.

No primeiro trimestre deste ano, segundo o IBGE, 11,089 milhões de pessoas tentaram, sem êxito, se ocupar. São desempregados pela estatística oficial. A informalidade também aumentou no período.

Entre o primeiro trimestre de 2015 e o início deste ano, segundo Hoffmann, “aumentou o desemprego, diminuiu a renda média e cresceu a pobreza”.

ECONOMIA NO ALMOÇO

Na fila do restaurante popular no bairro de Santana, na zona norte de São Paulo, a cuidadora de idosos Rejane Araújo, 56, sentiu na pele o sinal mostrado pelos números. Perdeu a carteira assinada, faz trabalho informal e recorre ao prato popular para economizar no almoço. “A vida era mais fácil antes.”
Renda dos mais ricos continua a avançar, apesar de recessão

O aumento da desigualdade no período mais recente vem ocorrendo devido à queda da renda dos mais pobres.

Pelo levantamento feito pelo professor da USP Rodolfo Hoffmann, a renda dos que estão na base da pirâmide caiu no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2015.

A desigualdade –diferença entre ricos e pobres– aumenta quando há descompasso no ritmo de aumento de renda dos dois extremos.

Entre 2001 e 2014, a desigualdade recuou porque a renda dos mais pobres cresceu mais do que a dos ricos.

O velocímetro se inverteu no segundo mandato de Dilma, pelo radar de Hoffmann.

Entre o primeiro trimestre de 2015 e este ano, a metade mais pobre da força de trabalho perdeu renda. Já entre os 10% mais ricos, ela cresceu. O desemprego e a piora do mercado de trabalho, via informalidade, têm recaído com mais intensidade sobre os trabalhadores de menor renda e escolaridade, observa a economista Ana Maria Barufi, do Bradesco.

“O desemprego sobe mais entre os que tinham menos qualificação e os que tinham rendimento mais baixo. [Isso sugere que] os que estão saindo da massa ocupada são os mais pobres”, afirma.

“Se o desemprego aumenta nas camadas inferiores da distribuição, é de esperar que a renda dos mais pobres caia mais”, acrescenta.

Pelo estudo de Hoffmann, subiu a fração de pessoas que informaram receber como salário ou renda do trabalho até R$ 600 ao mês. No primeiro trimestre, eram um quarto da força de trabalho –quase 27 milhões de pessoas. Se descontados os desempregados (cuja renda é zero pela metodologia do estudo), são 16 milhões de pessoas.

“A linha de R$ 600 dá ideia da precarização do mercado de trabalho”, diz Barufi, referindo-se a fontes de renda que vêm de bicos e outros trabalhos informais.

Hoffmann acredita que o comportamento verificado na força de trabalho vá interferir na desigualdade total –que compara a renda dos domicílios dos dois extremos, somando benefícios.

“Eu apostaria que os dados sobre renda domiciliar per capita também vão mostrar interrupção da queda da desigualdade”, referindo-se à tendência que, para ele, teve início em 1995.

Barufi prevê que a desigualdade total vá subir, porém com menos intensidade do que a vista no radar do especialista da USP.

Para ela, a medida de desigualdade focada apenas no rendimento da força de trabalho pode mostrar um retrato exagerado do problema.

“Para as classes D e E, a renda do trabalho corresponde a 63% da massa de renda. Outras fontes [como o Bolsa Família e a Previdência] são importantes nessa camada da população”, afirma ela.

Os especialistas debatem atualmente se o aumento da formalidade, ocorrido na última década, poderia contribuir como uma proteção aos mais pobres neste momento de crise, com FGTS, abono salarial e seguro-desemprego.

Para Sérgio Firpo, do Insper, esse colchão é mais fino do que se pode imaginar. “As regras de acesso a esses benefícios, tais como funcionam hoje, estimulam a rotatividade excessiva”, diz. “De tanto rodar de emprego, o trabalhador acumulou menos poupança.”

Fonte: Força Sindical

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